ano paulino

Leitura da carta aos Romanos

Que o vosso amor seja sem hipocrisia: detestai o mal e apegai-vos ao bem; no amor fraterno, sede carinhosos uns com os outros, rivalizando na mútua estima. Quanto ao zelo, não sejais preguiçosos; […] Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração. Sede solidários com os cristãos nas suas necessidades e aperfeiçoai-vos na prática da hospitalidade. (12, 9-13)

Pai-nosso

Ano Paulino

anopaulinocad

3 DIMENSÕES

1. O Catolicismo é uma inspiração total da vida e portanto dá também princípios inspiradores da sociedade. As democracias cristãs tiveram um papel enorme na democratização da Europa ocidental. Em Portugal, no 25 de Abril, o episcopado de então deu essa orientação – não se comprometia com nenhum partido de nome cristão e de cariz cristão, mas desafi ava os cristãos a serem participativos nos partidos.
Ninguém se pode eximir de participar no processo político global, o processo político como interesse da coisa pública do bem comum. Quando chegámos a uma isenção, digamos assim, da hierarquia em relação à política, é em relação à política partidária, à política da luta pelo poder, mas não ao interesse da sociedade como tal.
A Igreja tem que tomar consciência de que hoje exerce a sua missão numa sociedade que não se identifi ca com ela, no sentido em que a Igreja não é a sociedade. No nosso caso, há uma maioria de católicos mas há também outros e isso faz com que a Igreja não possa situar-se no quadro da sociedade exercendo um antigo poder de influência e uma antiga relação Igreja/sociedade que já não existe.
2. Eles [os leigos] podem ter uma missão interna à Igreja, mas aquilo que é específi co deles é aquilo que o Concílio chama animação da ordem temporal: no mundo do trabalho, no mundo da justiça, no mundo da política, no mundo da economia, serem pessoas que da prática vão fazer uma análise da realidade e um juízo da realidade em chave cristã, e isso é absolutamente decisivo até em termos de evangelização.
Vamos acentuar o primeiríssimo elemento da intervenção de Deus na minha vida, que é a sua palavra, aprender a escutá-lo através dos meios físicos que eu tenho à minha disposição e que são a bíblia, são a palavra da Igreja.
3. O Ano Paulino é um contexto precioso, porque Paulo é um caso único de autenticidade e de coerência com o evangelho e com a pessoa de Jesus Cristo. A autenticidade da sua conversão… é um homem que se converteu de todo e a partir daí começou um futuro novo que o levou depois a tudo.

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Zemanta Pixie

24 horas a viver e testemunhar a fé

Os jovens da Diocese de Lisboa, maiores de 16 anos, foram convidados a participar numa actividade de 24 horas.

Esta acção acontecerá nos dias 28 e 29 de Junho, e pretende celebrar três acontecimentos: a abertura do Ano Paulino, o aniversário episcopal do Cardeal-Patriarca e as ordenações presbiterais.

Organizada pelo Sector de Animação Vocacional, em conjunto com os sectores da Juventude e da Pastoral Universitária, esta iniciativa, denominada “24-Xpto”, tem início com um encontro dos jovens com D. José Policarpo, na Sé Patriarcal, às 18 horas, e inclui ainda a vigília das ordenações (na igreja de São Paulo, ao Cais do Sodré), a partir das 21 horas, uma marcha luminosa pela cidade, adoração nocturna e acções missionárias na cidade. O “24-Xpto” culmina no domingo, dia 29 de Junho, no Mosteiro dos Jerónimos, com a presença de todos os jovens nas ordenações de presbíteros da Diocese de Lisboa, que têm início às 16 horas.
Dirigido a todos os jovens das diferentes comunidades cristãs – paróquias, institutos e movimentos – a “24-Xpto”, nas palavras dos organizadores, é “um programa algo arrojado, para ‘24 horas de vivência e testemunho da fé’”

Informações: 218810500

www.24xpto.net

Zemanta Pixie

“A Igreja no tempo e em cada tempo”

O Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, publicou este Domingo uma Carta Pastoral na qual deixa apelos em favor de uma Igreja mais activa num tempo de “mutação cultural”, lamentando que a comunidade católica tenha vindo a perder espaço na sociedade “como principal fonte inspiradora de valores da humanidade”.
A Carta frisa que a Igreja “não pode cruzar os braços e renunciar à sua mensagem, mas deve fazê-lo por outro caminho: o da fidelidade interna a Jesus Cristo e ao Seu Evangelho e o do serviço à sociedade, à pessoa humana, suscitando pelo amor e pelo serviço, as sementes de esperança que ainda não morreram no coração dos homens”. “A autenticidade do seu serviço à humanidade deve impor-se por si, e não por mera lógica de poder”, acrescenta.
A missiva, que assinala os 30 anos de Bispo e 10 de Patriarca, tem como título “A Igreja no tempo e em cada tempo”.
D. José Policarpo alerta que “é um erro considerar a fé cristã como uma atitude estritamente individual. Quer no seu dinamismo interno, quer na sua missão no mundo, a Igreja situa-se necessariamente num quadro cultural”. “Sem a radicalidade evangélica autêntica da vida, a Igreja será, sobretudo, vítima da mutação cultural. Só isso lhe dará autoridade para, no inevitável debate cultural, afirmar a diferença de modo a interpelar e rasgar novos horizontes de esperança”, precisa.

CARTA PASTORAL_“A Igreja no tempo e em cada tempo

espírito santo

Uma vida escondida

Sessão do dia 16 de Março de 2008, Jorge Bastos

Uma vida escondida

Um olhar sobre a clausura das Carmelitas, no silêncio e na oração , aparentemente longe do mundo, mas perto das pessoas

Um silêncio que não se aprecia, mas é provocador. Uma alegria que desconcerta. Uma luminosidade que entra pelas janelas do Carmelo de Fátima e que surpreende na espontaneidade dos gestos, dos sorrisos, do acolhimento. Uma certeza que se ganha e que surge como uma graça. Diz a Superiora do Carmelo de Fátima, a Irmã Cristina Maria que esta “é uma vida que só se compreende à luz da fé”.

Será o Carmelo de Fátima um convento para o século XXI? As Carmelitas descalças são seguramente pessoas do Século XXI. O tempo passa e trás coisas novas. Mas é esse mesmo tempo que dá também a resposta da vocação e constrói a família dentro do convento.

Carmelo significa “jardim”. Conta a tradição que o profeta Elias se estabeleceu numa gruta, no Monte Carmelo, seguindo uma vida eremítica de oração e silêncio.

O silêncio e a oração humanas são iguais, mas encontram caminhos actuais.

Porque a vida se renova, não se pode pedir a uma pessoa que viva nas mesmas condições do Século XVI, mesmo sendo em clausura.

Mas o possível conforto “não retira em nada à vida de uma carmelita porque «os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e em verdade»”, recorda a Superiora.

“É este o culto que o Pai deseja e é este o caminho que nós levamos na adaptação aos novos tempos. O importante é que o nosso coração seja só dele. E procuremos que a nossa vida seja toda para Ele e para os irmãos”.

Um mundo pequeno

Vive-se e morre-se no Carmelo. Só se vai para o hospital em situação extrema. Por isso, a parte superior do Carmelo, em Fátima, está preparada para tratar das irmãs que estão doentes.

Nas imediações do convento está o cemitério onde estão sepultadas as irmãs que moraram nas antigas instalações e onde, serão sepultadas as irmãs que agora habitam o novo Carmelo.

As 20 irmãs que ali vivem, com idades entre os 23 e os 83 anos, são todas muito diferentes, em culturas, em educação, em temperamento também.

“Cada uma veio de seu lado”, apesar de presentemente, se encontrarem no Carmelo muitas irmãs naturais de Lisboa.

“Conhecemo-nos muito bem, ajudamo-nos muito umas às outras”. Nem por isso é fácil, tal como no conceito comum de família.

Mas a Irmã Cristina explica que “a nossa oração é efectiva e eficaz na medida em que uma comunidade de carmelitas for uma comunidade de amor”. Por isso, nunca excedem as 21 religiosas no convento, “para que sejamos uma comunidade familiar”.

Também neste processo se vive a entrega, do passar por cima, de quebrar fronteiras e barreiras psicológicas que cada uma possa ter. “Tudo isto acaba por tornar a comunidade terapêutica mas também fecunda na nossa oração”, pois, explica a Superiora, “a nossa oração só é verdadeira se eu amar a minha irmã que está aqui perto de mim”.

Alegria vivida

O acolhimento e a entrega que as irmãs sentem e demonstram por todas as pessoas que as visitam transborda.

“Quem procura relacionar-se com Deus tem que saber relacionar-se com os homens, o que não quer dizer que nós saibamos fazê-lo, mas tentamos”.

A Superiora atribui a alegria do acolhimento à ternura que sentem. “Temos muitas pessoas nossas amigas e talvez seja uma forma de nos fazermos próximas delas, já que tantas vezes não temos ocasião para o mostrar”. Mas o que brota para fora é o que se vive dentro. “Há uma empatia mútua que se cria assente na fé das pessoas”.

A Irmã Cristina Maria dá conta de um “mundo tão frio que as pessoas necessitam de um sorriso, de uma palavra, de um acolhimento, que é o que menos têm”.

Mesmo do lado de dentro do Carmelo, a Superiora nota que “as pessoas passam a vida a correr de um lado para outro, e acabam por se tratar superficialmente. Por isso, quando se encontra um coração que acolhe, a pessoa sente-se bem”.

“O acolhimento é dos valores que actualmente as pessoas mais precisam e mais desejam”, enfatiza. O Carmelo é também chamado a dar visibilidade “desse acolhimento e amizade, do abrir os braços às pessoas e sabê-las amar”.

Vida, dia a dia

As carmelitas iniciam o seu dia às 5h45. Meia hora depois encontram-se para rezar Laudes e depois, segue-se uma hora de oração mental. “Estamos todas juntas, no coro, perto da capela, onde vemos o sacrário, mas cada uma está a rezar em silêncio”, explica a Superiora.

Depois desta hora, segue-se o pequeno almoço “e fazemos mais qualquer coisa” antes das 8h15, hora em que celebram a eucaristia. Os responsáveis actuais pelas celebrações eucarísticas são os padres da Consolata.

Após a eucaristia “rezamos Tércia”, uma “hora menor do Ofício Divino” e depois as irmãs, realizam as mais diversas tarefas, até ao meio dia.

Às 12h rezam o Angelus e segue-se o almoço em silêncio. Na sala da refeição está um púlpito onde uma das irmãs lê uma leitura, uma história de um santo, o catecismo ou até mesmo notícias do Observatório Romano, enquanto as restantes comem.

Após o almoço e a arrumação da cozinha que “é muito rápida pois todas ajudam”, segue-se uma hora de recreio.

“Não se trata de saltar ao eixo”, brinca a Superiora, mas admite que “somos muito barulhentas umas com as outras”. Habitualmente em silêncio, nas horas de recreio “somos muito esfuziantes e quando podemos falar procuramos mostrar essa amizade”, aponta.

No recreio as irmãs estão todas juntas a fazer várias tarefas. “Algumas descascam batatas, outras fazem terços para vender para a loja” – uma forma de subsistência – e “falamos muito”.

Segue-se uma visita ao Santíssimo e voltam para o trabalho até às 15 horas. Nesta altura rezam a hora de Noa, “outra hora pequena do Ofício”.

Segue-se uma leitura espiritual durante uma hora. Pelas 16h15 regressam ao trabalho até às 17h30, hora das vésperas.

Segue-se “nova hora de meditação mental, tal como de manhã” e depois as carmelitas jantam, tal como na hora do almoço, acompanhadas de uma pessoa a ler.

Novamente recreio à noite e passado uma hora, rezam “o ofício de leituras”.

No final desta oração, “toca uma sineta e é o silêncio grande”, descreve a Ir. Cristina. Não se trata de um silêncio rigoroso, “podemos falar se necessário, mas o desnecessário, deixa-se para depois”.

A partir das 21 horas até às 21h45, as carmelitas seguem para a cela, “em silêncio” e “fazemos o que precisamos. Algumas lêem, outras estudam, outras escrevem e depois rezamos completas, todas juntas”. Quando terminam pelas 22h 15m, é hora de recolher às celas.

É uma vida muito particular. “Uma vida de silêncio, de oração, de solidão mas não solitária, não no sentido triste”, avança a Superiora.

As pessoas não estão habituadas ao silêncio. Quando se entra no Carmelo, a Irmã Cristina regista a dificuldade de “nos habituar ao silêncio, saber estar em silêncio”. Mas esta quietude não significar “estarmos apenas connosco mesmas, mas abrir um espaço para que Jesus possa falar”.

A Superiora descreve um espaço em que há silêncio, mas onde “há relação com as irmãs e é isso que faz com que a nossa oração vá crescendo e nós também”. Sabiamente acrescenta que “aprender isto, às vezes, leva uma vida”.

O silêncio surge com a naturalidade. Não sendo nada simples, tudo no Carmelo parece natural.

“É muito bonito quando se chega à possibilidade de perceber o Carmelo como algo muito simples, mas cheio de uma beleza muito grande”, aponta a Superiora.

“Jesus viveu 33 anos, numa vida simples, de família, escondida. Viveu para mostrar que isto é o essencial da vida”, explica.

A descrição e serenidade são condições que hoje são distantes das pessoas. “Todos querem ser visíveis, chamar a atenção” ao ponto de viver na descrição não ser compreensível para as pessoas.

Mas esta vida “na naturalidade, no óbvio, o permanecer na autenticidade faz com que a vida, realmente seja vida”, resume simplesmente.

No Carmelo, porque a clausula não permite a exposição, “temos condições para viver em autenticidade, em naturalidade, para que possamos fazer uma experiência de Deus”.

Uma experiência também possível aos leigos que pode converter.

“As pessoas mais afastadas da Igreja deixam-se tocar não por palavras nem por livros que leiam, mas pelo «Vinde e vede». E aqui experimenta-se a vida de família, e sente-se o amor”.

Consultar http://www.ecclesia.pt/setenta/

LIVRO DE JOB

Sessão do dia 2 de Março de 2008, Tiago Faria

A SABEDORIA E OS LIVROS SAPIENCIAIS

Nos Antigo e Novo Testamentos, os livros bíblicos podem ser divididos em Livros Históricos (por exemplo, livro dos Reis, das Crónicas e Evangelhos) que incluem os Livros da Lei (pentateuco), Livros Sapienciais (por exemplo, livro dos Provérbios, da Sabedoria e cartas Apostólicas) e livros Proféticos (por exemplo, Isaías, Jeremias e Livro do Apocalípse). O livro de Job insere-se no conjunto dos Livros Sapienciais ou Livros da Sabedoria. O termo sabedoria é aplicado a um conhecimento baseado na experiência humana acumulada ao longo da vida e enriquecida através de gerações e que se fixou em pequenas frases como os provérbios.

O povo hebreu apercebeu-se da importância que a sabedoria tinha pois não era possível regulamentar todas as áreas da vida apenas pela Lei de Moisés e dos profetas. Havia, portanto, a necessidade de adquirir conhecimentos e capacidade crítica para avaliar e discernir sobre pessoas, situações e acontecimentos. Os livros Sapienciais caracterizam-se pela fé do homem na sabedoria divina. Enquanto nos livros Históricos a personagem terrena é o Povo de Deus como um todo, nos livros Sapienciais o centro é o homem individual, a sua vida quotidiana, a sua liberdade pessoal, o uso da razão e da prudência para orientar a sua vida, a sua relação com a criação e os seus enigmas. Ao contrário do que acontece nas profecias, a sabedoria exige que todas as capacidades e dons do homem sejam utilizados. A sabedoria nasce e cresce do homem para Deus em oposição à Lei e às Profecias que são uma mensagem de Deus para o homem. Na Lei e nas profecias, a autoridade está em Deus que é o autor da Palavra; na sabedoria, a autoridade está na argumentação, na reflexão, na experiência, na tradição.

Outra característica da sabedoria bíblica é o seu afastamento do culto. O encontro do sábio com Deus dá-se na criação e não no âmbito do culto. A tarefa dos autores dos Livros da Sabedoria é doutrinal sendo, muitos deles, leigos bastante cultos e conhecedores das culturas dos povos vizinhos. De facto, muitas das histórias relatadas nos Livros da Sabedoria têm a sua origem em histórias existentes nas regiões vizinhas de Israel que foram adaptadas segundo a perspectiva religiosa do povo hebreu. No Médio Oriente Antigo, a “ordem do mundo” era uma característica fundamental do pensamento e da fé: as divindades manifestavam‑se aos mortais e estes discerniam princípios gerais de conduta como a rectidão, a justiça, o direito e a verdade. A sabedoria consistia em compreender esta “ordem”. Ao adoptar e adaptar estes ensinamentos, Israel colocou o Deus único como o princípio e a causa dessa “ordem do mundo” e, portanto, como origem dos princípios fundamentais da vida humana.

A história sapiencial acompanha o homem desde sempre. No entanto, existem épocas históricas que foram mais propícias a esta reflexão. Tradicionalmente, o pensamento sapiencial está associado à figura de Salomão (972-931 a.C.). Antes de Salomão, Saúl e David estiveram concentrados na construção e expansão do reino de Judá e de Israel. Logo, não dispunham de meios para promover a educação. Com um reino estável e uma economia sadia, Salomão pôde dedicar-se à cultura e à reflexão sapiencial. Foi também durante o reinado de Salomão que se pensa que muitos textos bíblicos tenham começado a ser escritos. No entanto, a grande expansão do pensamento sapiencial aconteceu no período posterior ao exílio na Babilónia (cerca de 600 a.C.). Durante este período, a sabedoria passa a ser vista como a mediadora da revelação divina sendo considerada como o princípio divino dado aos homens na criação, convertendo-se na grande fonte de inspiração para a educação dos povos. A antiga sabedoria era orientada pelo temor de Deus, no entanto, a nova sabedoria é personificada, ou seja, passa a ser considerada como uma entidade autónoma e distinta de Deus e do homem. A sabedoria age por si, fala ao homem como uma pessoa, é a forma de ligação entre a salvação de Deus e o homem. Apesar de ser personificada, a sabedoria nunca foi encarada como uma pessoa; essa pessoa completamente sábia será Jesus Cristo.

LIVRO DE JOB

Autoria e estrutura

Uma análise cuidadosa do seu estilo literário permite afirmar que o Livro de Job não foi composto de uma só vez. Além disso, existem algumas incoerências no seu conteúdo o que confirma a opinião de que este conjunto literário tenha sofrido diversas alterações e acrescentos ao longo da história. É provável, no entanto, que o autor principal desta obra tenha sido um israelita conhecedor do pensamento hebraico tradicional e das grandes preocupações humanistas existentes nos países vizinhos. O conto tradicional de Job deverá ter a sua origem em data indeterminada, mas bastante antiga, na região a sul de Israel. O nome de Job não é um nome tradicional hebraico, aparecendo apenas neste livro, no livro de Ezequiel e na Carta de Tiago onde Job é apresentado como uma figura lendária dos tempos patriarcais dotada de grande sabedoria. Apesar da história ter como base um conto bastante antigo, a maioria dos estudiosos situa este livro no período pós-exílio (cerca de 400 a.C.).

O Livro de Job impôs-se como uma marco fundamental na Bíblia porque, por um lado, apresenta a experiência religiosa pessoal como um objecto de reflexão (e fá-lo com notável profundidade humana) e, por outro lado, apresenta a tomada de consciência dos sofrimentos e dramas da vida humana, procurando a sua interpretação à luz da vontade divina. O Livro reflecte as repercussões do sofrimento, quer directamente na experiência de quem sofre, quer indirectamente nos conceitos religiosos e morais existentes na época. Por outras palavras, no Livro de Job analisa-se o problema de saber se existe alguma correlação justa ou lógica entre a maneira honesta como se vive e a maneira como a vida nos corre.

A estrutura do Livro de Job pode ser esquematizada por:

I. Prólogo biográfico: 1,1-2,13 (Job paciente);

II. Primeiro monólogo: 3,1-26 (Lamentações de Job);

III. Primeiro debate: 4,1-14,22;

IV. Segundo debate: 15,1-21,34;

V. Terceiro debate: 22,1-27,23;

VI. Elogio da sabedoria: 28,1-28;

VII. Segundo monólogo: 29,1-31,40 (Job desiste de pedir respostas a Deus);

VIII. Discurso de Eliú: 32,1-37,24;

IX. Intervenção de Deus: 38,1-42,6;

X. Epílogo biográfico: 42,7-17 (Job recompensado).

Tema e mensagem

A popular história de Job é a de um homem justo, íntegro, piedoso e rico que é subitamente posto à prova. Job vai perdendo todos os seus bens, os seus filhos e a sua saúde. A sua reacção não é de revolta mas de aceitação e de paciência: «Nu saí do ventre de minha mãe, e nu para ele voltarei. Javé tudo me deu e Javé tudo me tirou. Bendito seja o nome de Javé!» (Jb 1,21). Por isso, Job é apresentado como modelo do sofredor paciente. A sua fidelidade a Deus leva a que, no fim, Job seja recompensado por Deus recuperando a saúde, os bens e até numerosos filhos. No entanto, não é nesta pequena história contada em prosa que se encontra a maior riqueza deste livro.

A verdadeira originalidade do Livro de Job está escrita em verso na sua parte central. Aqui encontramos um Job completamente diferente, um Job inconformado, repleto de perguntas, que não aceita a sua desgraça nem a explicação tradicional e que interroga e pede contas a Deus pelo que lhe aconteceu. Temos, portanto duas partes no Livro de Job: a primeira, idealista e utópica, apresenta-nos um modelo de paciência, aceitação, conformismo; e a segunda parte, que está mais relacionada com a realidade, o ser humano é-nos apresentado com dúvidas, dilemas e perguntas sobre a vontade de Deus.

O sofrimento é a força motriz que impele Job (e nos impele a nós) para a dúvida, para as interrogações, em última análise, o sofrimento leva-o ao encontro com Deus, pois obriga-o a descer ao profundo do humano para procurar o sentido para esse sofrimento. Durante esta reflexão poética central, o Livro de Job apresenta-nos vários amigos com diversas argumentações acusando muitas vezes Job de ser o responsável pelo sofrimento em que se encontra. No entanto, Job nunca desfalece até que Deus intervém respondendo a todas as discussões anteriores.

O Livro de Job é uma obra de reflexão e meditação e, ao mesmo tempo, um espaço para levantar questões ainda hoje dramáticas. Em termos teológicos, o Livro de Job não apresenta uma catequese tradicional mas antes analisa um conjunto de problemas cuja solução reflecte a concepção que se tem sobre Deus.

Em Job, rejeita-se um sistema de pensamento religioso: as posições moralistas e tradicionais da equivalência entre o sofrimento de uma pessoa e algum pecado por ela cometido. É o pensamento maioritariamente defendido pelos seus amigos. Por outro lado, o pensamento religioso do livro parece aproximar-se da nova consciência de Job, de onde emergem verdades já bastante evidentes para ele, mas que o deixam ainda muito inseguro e mesmo escandalizado. Mas nem todas as suas ideias são confirmadas, após a contemplação da sabedoria (Cap. 28), o discurso de Eliú (Cap. 32-37) e a intervenção final de Deus. Se as teses da religiosidade tradicional e popular sofrem uma forte contestação, também as novas sensações iniciais de Job chegam ao fim algo esbatidas. Ao longo do livro, Job empreende uma reflexão amadurecida e profunda.

Em suma, neste livro recusa-se que a causalidade de todo o sofrimento deva ser atribuída, seja ao homem, seja a Deus. A ética e o ciclo da vida, com os seus percursos naturais de sofrimento e morte, são dois processos coexistentes, mas autónomos. A justiça e a acção de Deus não se podem medir com as regras de equivalência que são normais na justiça terrena. E este é um dos mais marcantes contributos do Livro de Job para a importante questão do humanismo e da experiência religiosa. A sua atitude básica perante o sofrimento não é de moral legalista, é, antes, uma atitude de corajoso acolhimento do real; é contemplativa e verificadora; é um caminho de sabedoria. É, por conseguinte, um espaço de transformação de si mesmo e dos factos que levam ao conhecimento e entrega incondicional do homem a Deus.

ANÁLISE DO LIVRO DE JOB

Prólogo

Apresentação de Job

Job é apresentado como tendo uma vida irrepreensível e feliz. Job é dono de uma grande fortuna e pai de numerosos filhos (Jb 1,1-3)

Diálogos entre Deus e Satan (nome funcional para acusador tentador, negador)

No primeiro diálogo (Jb 1,6-12), o tentador interroga Deus sobre a fidelidade de Job. Será que Job teme a Deus de forma totalmente desinteressada e gratuita? Segue-se o acontecimento terreno decorrente deste primeiro diálogo entre Deus e Satan (Jb 1,13-19). A resposta de Job reflecte a sua genuína fidelidade (Jb 1,20-22).

No segundo diálogo (Jb 2,1-6), Satan continua a duvidar da fidelidade de Job e consegue impor-lhe maiores sofrimentos. Depois do reflexo terreno deste diálogo (Jb 2,7-8), Job mantém-se fiel, sem pecar ou protestar contra Deus (Jb 2,9-10).

Os amigos de Job

Job recebe a visita de três amigos que vêm solidarizar-se com a sua desgraça e consolá-lo. Ao vê-lo, os amigos ficam num profundo silêncio, sinal de solenidade e nobreza, mas também sinal de admiração e incapacidade de consolar Job (Jb 2,11-13).

Primeiro monólogo de Job ( Lamentações de Job)

Job quebra o silêncio e amaldiçoa o dia em que nasceu, amaldiçoa a sua vida. As exclamações, dirigidas tanto aos amigos como a Deus, saem-lhe de forma intempestiva e agressiva reflectindo o drama trágico do seu sofrimento. Imagens como “trevas”, “nuvens”, “eclipses”, “escuridão”, “morte”, “aborto” e “sepulcro” revelam o caos em que se encontra. Neste texto a esperança é uma palavra vã e a morte aparece, por vezes, como alívio da dor e, outras vezes, como inimiga de uma última esperança que nem tem a coragem de se exprimir.

Estas lamentações dramáticas fazem de Job um companheiro para todos os que sentem o sofrimento e o quanto custa a dor e a procura de compaixão.

Debates com os amigos

O monólogo de Job contém um apelo à solidariedade dos amigos, mas estes não demonstram qualquer sinal de compaixão. Os amigos preocupam-se especialmente em apresentar e defender as suas teses baseadas na teologia oficial que não responde a Job. A argumentação dos amigos foca quatro pontos principais:

Dogma da retribuição – o castigo dos pecadores

O castigo dos maus está profundamente enraizado na tradição bíblica e é repetidamente expresso pelos amigos de Job recorrendo a imagens tradicionais da bíblia (Jb 8,11-14; Jb 15,20-23; Jb 27,15-17). Ao utilizarem o dogma da retribuição no diálogo com Job, os amigos estão implicitamente a acusarem Job de ser um pecador cujos pecados são realizados em segredo. Além disso, o facto de Job não reconhecer a culpa e pedir justificações a Deus é considerado pelos amigos como arrogância que apenas agrava a situação. As acusações dos amigos vão crescendo, chegando, mesmo, à injúria (Jb 15,4-6; Jb 22,4-20). O amigos atribuem a Deus a origem do castigo mas reconhecem que Deus se serve das causas naturais para executar esse castigo. Job refuta os argumentos dos amigos, pondo em causa as suas atitudes e antecipando o veredicto de Deus sobre eles (Jb 42,7). Job critica o dogma da retribuição dizendo que essa teoria está constantemente a ser posta em causa pela realidade: quando uma calamidade atinge a terra, tanto os bons como os maus são afectados (Jb 9,22-24).

Dogma da retribuição – a prosperidade dos justos

Por oposição ao castigo dos pecadores, o dogma da retribuição equitativa é a felicidade garantida dos justos (Jb 5,20-22; Jb 11,13-17; Jb 22,21). Segundo os amigos, a prosperidade dos justos ainda é possível, Job deve converter-se e humilhar-se diante de Deus, reconhecendo as suas faltas. De recordar que este foi o tema da conversa de Deus com Satan: a fidelidade a Deus por oposição ao mercantilismo religioso. Job, convicto da rectidão da sua vida, continua a gritar com toda a energia a sua inocência (Jb 6,28-30; Jb 13,17-18; Jb 27,5-7).

Indignidade do homem – Deus é a única e completa santidade

Como Job continua a repetir a sua inocência, os amigos tentam utilizar outro argumento: ninguém pode reclamar-se puro diante da santidade de Deus. Portanto, segundo os amigos, Job nunca poderia ter a ousadia de pedir justificações a Deus. O tema da indignidade humana perante Deus é muito comum, não só na literatura sapiencial, como também nos profetas e nos salmos. Os amigos de Job apresentam-lhe este argumento de forma clara e eloquente (Jb15,14-16).

Job concorda com este argumento mas por razões diferentes das apresentadas pelos seus amigos. Para estes, a razão da indignidade do homem e, concretamente de Job, reside no seu pecado. Por sua vez, para Job a razão reside na relação da criatura com o seu Criador (Jb 9,2-4).

Sofrimento como prova pedagógica para o justo

Perante a firmeza de Job ao reclamar a sua inocência, os amigos (em especial Elifaz) argumentam que Deus utiliza o sofrimento do homem como forma de o levar à conversão. Elifaz exorta Job a não desprezar “a lição do Todo-Poderoso” (Jb 5,17-18). Job sente a ausência e a crueldade de Deus na sua vida e, no entanto, de forma dramática percebe ainda que Deus é a sua única esperança para tentar compreender o que se passa com ele e para tentar encontrar justificação. Deus é, ao mesmo, tempo a causa do sofrimento e a esperança de Job (Jb 17, 3). Job tenta encontrá-lo mas Deus não está acessível (Jb 23,8-9).

Elogio da Sabedoria (Jb 28,1-28)

Neste texto é cantada e louvada a grandeza de Deus e o seu domínio sobre a criação e a história. O elogio da Sabedoria dentro do livro de Job funciona de separador entre os três debates anteriores e os três discursos seguintes (segundo monólogo de Job, discurso de Eliú e intervenção de Deus).

Segundo monólogo de Job

Durante os debates com os amigos, Job rejeita os seus argumentos com a segurança e convicção próprias de um homem de fé. A ideia de um Deus mercantilista nas suas recompensas e castigos é contrária àquilo que se passava com Job. Apesar de se sentir abandonado por Deus, Job nunca vacilou na fé, nem mesmo quando os amigos lhe sugerem que se considere um pecador para obter novamente a simpatia de Deus. Para Job, isto seria negar-se a si mesmo e a Deus. Como as atitudes e os argumentos dos amigos se revelam inúteis para a consolação de Job, estes debates terminam. Para tentar compreender e resolver o seu problema, Job dirige-se directamente a Deus. Durante os debates com os amigos, aparecem já sérias acusações a Deus, pois, se Job é inocente e Deus é poderoso, então é Deus o responsável pela situação de Job. Este é o tema principal deste segundo monólogo de Job. Deus é apresentado como ausente, cruel e distante (Jb 30, 20-21) sendo a imagem do Deus consolador uma longínqua memória do passado (Jb 29,1-5).

O segundo monólogo Job é constituído por três partes: o passado feliz (Cap. 29), o presente miserável e desgraçado (Cap. 30) e um juramento pessoal da sua inocência (Cap. 31). Neste monólogo, Job apresenta um Deus poderoso e dominador da natureza e da história, criador e atento ao homem e cuja sabedoria excede a de qualquer humano. A falta de um mediador imparcial entre o homem e Deus permite que Deus exprima a sua força de forma arbitrária, incompreensível. O drama de Job reside na contradição brutal que existe entre a sua fé (Job sempre foi e continua a ser um homem crente na bondade do criador pela criatura) e a realidade que experimenta. Além da agressividade de Deus, Job revolta-se também contra o seu silêncio. Esta violenta revolta de Job relata a procura desesperada por Deus, por um Deus próximo e consolador. Job sente que a sua vida está em jogo, Job sente que a credibilidade de Deus está em jogo e isso leva-o a desafiar, de forma violenta, o próprio Deus para que lhe faça um julgamento. Job continua a reclamar a sua inocência perante Deus, seu rival e juiz, seguro de que sairá absolvido porque Deus há-de ser um Deus justo. A única dúvida que ainda persiste é se Deus irá responder. Apesar das várias interpelações que lhe são dirigidas directamente, Deus mantém‑se em silêncio.

Discurso de Eliú

Eliú não foi apresentado na lista inicial de amigos que vêm consolar Job nem aparece no resumo final dos interveniente, por isso, este discurso deve ter sido acrescentado depois da conclusão do texto (de facto, em Jb 31,40 diz-se “Aqui terminam as palavras de Job). No entanto, a forma como Eliú fala denota que esteve atento aos debates anteriores. Eliú é um jovem sábio que intervém depois de Job acusar e desafiar Deus para o julgar. Como sábio, Eliú chama a atenção de Job para a sua linguagem, para a forma como se dirige a Deus e o acusa de injustiça. Para Eliú, Job não deveria gritar, mas sim obedecer (Jb 36,19) e glorificar Deus (Jb 34, 24). O mais importante na intervenção de Eliú é, contudo, a repreensão que dirige aos três amigos de Job por não terem encontrado resposta convincente contra Job. Em Eliú retoma-se a teoria do sofrimento como pedagogia para o justo (Jb 33,13-30; Jb 35,8-12). Segundo Eliú, o que aconteceu a Job não é fruto dos seus pecados mas sim para o tornar humilde. Apesar de conversar com Job, Eliú não mostra compaixão pelo seu sofrimento; mantém-se distante e acusa-o mesmo de blasfémia porque se Job tivesse razão estaria acima do próprio Deus. Além disso, para Eliú Job não deve escandalizar-se com o silêncio de Deus porque Deus é um ser supremo e omnipotente (Jb 34,29).

Intervenção de Deus

Do capítulo 3 ao 37, Deus encontra-se em silêncio. Apenas Job, os amigos e Eliú falam. Aqui se verifica a supremacia de Deus que responde a Job quando acha ser o tempo e não quando Job o exige. Na sua intervenção, Deus vem ao encontro de Job e revela-se de forma plena permitindo o encontro total de Job com Deus. Além disso, pode dizer-se que Deus sente a necessidade de intervir porque não está de acordo com as argumentações dos três amigos de Job e nem lhes dá qualquer importância. O mais curioso na intervenção de Deus é que não responde directamente a Job apesar dos vários “porquês” com que Job interpela Deus ao longo do texto. Deus não se justifica nem apresenta qualquer crítica a Job nem aos seus amigos e companheiros. O discurso de Deus não trata do sofrimento de Job. Deus apenas se apresenta como Criador do universo com todo o seu sentido e grandeza. Deus submete Job a um exame da história (Cap. 28) para o recordar que deve submeter-se à criação e que a beleza dessa criação reflecte a bondade de Deus. Deus fala de dois animais enormes e repelentes (hipopótamo e crocodilo) para recordar a Job que Deus é o Senhor do universo. Se Deus trata assim esses animais, Job terá de discorrer, por analogia, como não tratará Deus o homem e a mulher, feitos à sua imagem e semelhança.

Perante estas provas, Job reencontra-se com Deus e responde arrependendo-se da forma como falou a Deus (Jb 40,4-5; Jb 42,2-6). Job não se confessa pecador como os seus amigos queriam e logo Deus os repreende por não terem falado dele com rectidão, tal como Job fez (Jb 42,7).

Epílogo

O epílogo é o final feliz da história de Job. Regressam as bênçãos, a riqueza e felicidade pela acção do Deus que Job conhecia e que era distinto do Deus retributivo de quem os amigos falavam. De notar que depois de Job ressuscitar da desgraça não se vinga dos seus amigos. Pelo contrário, intercede por eles junto de Deus (Jb 42,5-9). Job desgraçado e sofredor torna-se no salvador e intercessor. É Job quem “salva” a humanidade intercedendo pelos pecadores.

Este epílogo mostra de forma clara que o Deus retributivo defendido pelos amigos de Job era um Deus artificial. Este epílogo é uma crítica à religiosidade que inventa deuses vingativos e um alerta para não cairmos, nós próprios, na tentação de olhar para Deus no modelo retributivo e fugirmos do verdadeiro Deus, libertador de ontem, hoje e de sempre.

BIBLIOGRAFIA

Bíblia Sagrada, Difusora Bíblica;

Neves, Frei Joaquim Carreira das, A Bíblia: o Livro dos Livros, Comentários ao Antigo Testamento, Volume I, Editorial Franciscana, 2007;

Alves, Frei Herculano, “Raízes da Sabedoria Bíblica”, in Caminhai na Sabedoria – Livros Sapienciais, Difusora Bíblica, 1991;

Ornelas, José, “O sábio: conformista ou inconformista? – O livro de Job”, in Caminhai na Sabedoria – Livros Sapienciais, Difusora Bíblica, 1991;

Apontamentos pessoais da Escola de Oração, Lições de Irmã Luisa Almendra, “Tocando o (pro)fundo humano: as perguntas de Job”, “Entre palavras e silêncios: as respostas a Job” e “Desvendando o (pro)fundo do divino: Job no limiar da Fé”, Março e Abril 2007.

Oração: Venha a nós o Vosso Reino

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Sinal da Cruz

Ambientação (Monitor)

O nosso grupo é hoje convidado a fazer um momento de oração. Estamos quase a terminar o primeiro Domingo da Quaresma de 2008. Julgo que será bom marcar desde já o compasso deste tempo litúrgico com o incremento da oração nas nossas vidas. Como todos sabemos, este é um tempo em que somos particularmente chamados à conversão e à preparação do grande acontecimento da vida cristã, ou seja, a vitória da Vida sobre a morte. Foi com esse intuito que resolvi centrar a nossa reflexão e partilha de hoje no tema “O Reino de Deus”, uma vez que deverá ser ele a meta da nossa esperança em Cristo Ressuscitado. A Igreja lembra-nos constantemente que todos os homens são chamados a participar no Reino. Entende também que tem um papel fundamental a desempenhar no mundo já que, como Corpo de Cristo, vê infundidos nos seus membros graças superabundantes de vida em plenitude. Será que o Reino de Deus está próximo de cada um de nós?

Cântico Inicial: “É preciso renascer”

É preciso renascer (bis)

Deixar ódios, violências,

É preciso renascer.

Convertei-vos e acreditai

Eis a nova que venho dar-vos

Amai todos sem distinção

Porque todos somos irmãos

Aceitai, aceitai, aceitai o Reino de Deus (bis)

Todos: Pai Nosso que estais no Céu, Santificado seja o vosso nome, venha a nós o Vosso Reino.

Palavra da Igreja (Leitor 1)

“No fim dos tempos, o Reino de Deus chegará à sua plenitude. A esta misteriosa renovação, que há-de transformar a humanidade e o mundo, a Sagrada Escritura chama «os novos céus e a nova terra» (2 Pe 3,13). Neste «mundo novo» Deus terá a sua morada entre os homens. «Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram.» (Ap 21,4). Para o homem, esta consumação será a realização final da unidade do género humano, querida por Deus desde a criação e da qual a Igreja peregrina é «como que o sacramento»”

in Catecismo da Igreja Católica 1042-1045

Palavra da Igreja (Leitor 2)

“Ignoramos o tempo em que a terra e a humanidade atingirão a sua plenitude, e também não sabemos que transformação sofrerá o universo. Porque a figura deste mundo, deformada pelo pecado, passa certamente, mas Deus ensina-nos que se prepara uma nova habitação e uma nova terra, na qual reina a justiça e cuja felicidade satisfará e superará todos os desejos de paz que se levantam no coração dos homens. A expectativa da nova terra não deve, porém, enfraquecer, mas antes activar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro. Por conseguinte, embora o progresso terreno se deva cuidadosamente distinguir do crescimento do reino de Cristo, todavia, na medida em que pode contribuir para a melhor organização da sociedade humana, interessa muito ao reino de Deus.

Todos estes valores da dignidade humana, da comunhão fraterna e da liberdade, fruto da natureza e do nosso trabalho, depois de os termos difundido na terra, no Espírito do Senhor e segundo o seu mandamento, voltaremos de novo a encontrá-los, mas então purificados de qualquer mancha, iluminados e transfigurados, quando Cristo entregar ao Pai o reino eterno e universal: «reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz». Sobre a terra, o reino já está misteriosamente presente; quando o Senhor vier, atingirá a perfeição.”

in Catecismo da Igreja Católica 1048-1050 = GS 39

Para reflectir…

O que é para ti o Reino de Deus?

Palavra de Deus (Leitor 3)

Evangelho segundo S. João 10, 7-18

«Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Se alguém entrar por mim estará salvo; há-de entrar e sair e achará pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, e o que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo e abandona as ovelhas e foge e o lobo arrebata-as e espanta-as, porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me, assim como o Pai me conhece e Eu conheço o Pai; e ofereço a minha vida pelas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também estas Eu preciso de as trazer e hão-de ouvir a minha voz; e haverá um só rebanho e um só pastor. É por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, para a retomar depois. Ninguém ma tira, mas sou Eu que a ofereço livremente. Tenho poder de a oferecer e poder de a retomar. Tal é o encargo que recebi de meu Pai.»

Palavra da Salvação

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Todos: «Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também estas Eu preciso de as trazer e hão-de ouvir a minha voz; e haverá um só rebanho e um só pastor.» Pai Nosso que estais no Céu… venha a nós o Vosso Reino.

Comentário (Monitor)

A Sagrada Escritura apresenta-nos a Igreja como um redil, cuja porta, pastor, guia e alimento é Cristo, que dá a vida pelas suas ovelhas.

Porque o Senhor quis e quer «um só rebanho e um só pastor» a Igreja é una.

Porque é divina, tem a plenitude do Espírito e participa da própria vida de Deus, a Igreja é santa.

Porque é destinada a todos os povos e pessoas sem distinção de raça ou cor, a Igreja é católica.

Porque está alicerçada no fundamento dos Apóstolos, a Igreja é Apostólica.

Porque tem a promessa e a garantia da assistência contínua de Cristo e do Seu Espírito, a Igreja é perena e nada nem ninguém a poderá destruir: «Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja e as portas do inferno nada poderão contra ela» (Mt 16,13)

Porque está formada por pessoas e estas podem falhar, a Igreja é também pecadora, tendo de viver sempre em estado de conversão.

Todos: A Igreja não é fim em si mesma; é meio de salvação para o mundo. Pai Nosso que estais no Céu, venha a nós o Vosso Reino.

Para reflectir…

A Igreja é necessária, mas também relativa: não é fim, é meio. O fim dela é o Reino de Deus no coração do homem e do mundo. Concordas com esta frase?

Pensamentos (Leitor 4)

«São numerosos os homens que Deus reconhece como Seus, mas não a Igreja; numerosos, também, os que a Igreja reconhece, mas não Deus» Sto. Agostinho

«Se os cristãos tivessem cara de salvos, eu acreditaria no seu Salvador» Nietzsche

“Desde o princípio, Jesus associou os discípulos à sua vida. Revelou-lhes o mistério do Reino, deu-lhes parte na sua missão, na sua alegria e nos seus sofrimentos. Jesus fala duma comunhão ainda mais íntima com Ele e os que O seguem: «Permanecei em Mim, como Eu em vós» (Jo 15,4). E anuncia uma comunhão misteriosa e real entre o Seu próprio Corpo e o nosso: «Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em mim e Eu nele» (Jo 6,56)” Catecismo da Igreja Católica 787

Comentário (Monitor)

Muitos não pertencem à Igreja, mas, de algum modo, pertencem ao Reino. Estão dispostos a fazer tudo o que é recto e bom. As fronteiras do Reino ultrapassam as fronteiras da Igreja, porque o espírito de Deus paira sobre toda a terra. Muitos nunca chegarão a entrar realmente na Igreja pelo exemplo de maus católicos que tornam irreconhecível a verdadeira Igreja e o rosto de Cristo.

Para reflectir…

Será que todos aqueles que não pertencem à Igreja, se conhecessem verdadeiramente Cristo e a Sua Mensagem, e se comungassem do Seu Corpo, não seriam ainda melhores e mais felizes?

Faz sentido evangelizar o próximo?

Leis do Reino de Deus (Leitor 5)

O Reino cresce no mundo de acordo com um dinamismo estabelecido pelo próprio Deus. Todo aquele que se integrar no Reino e quiser participar no desenvolvimento terá de respeitar e aceitar as suas leis internas. Jesus explicou-as maravilhosamente por meio de parábolas:

1. Lei da gratuidade – O Reino cresce por sua própria força. A semente frutificará; basta semeá-la com coragem, paciência e perseverança (lembrar parábola do semeador)

2. Lei do acolhimento – A palavra de Deus não dá fruto automaticamente, pois depende também da vontade do homem (lembrar episódio do Zaqueu)

3. Lei da gradualidade – O Reino de Deus começa sempre de forma simples e humilde. Não nos podemos escandalizar por ter de começar por iniciativas humildes e aparentemente insuficientes (lembrar parábola do fermento)

4. Lei da contradição – Muitos julgarão o Reino como impiedade, subversão ou loucura. A realidade nova do Reino só brotará se se for capaz de aceitar a crise, a oposição, a morte (lembrar parábola do filho pródigo)

Intenção (Leitor 6 e 7)

Não é propriamente dos pecadores transviados que tu me falas hoje, Senhor.

Tu falas-me sobretudo, do teu amor e solicitude para com todos, que deve ser imitado pelos que se dizem teus discípulos.

Falas-me do empenho especial que devemos ter pelos membros mais frágeis das nossas comunidades cristãs e pelos que a elas não pertencem, cuja potencial perdição, causada pelo escândalo dos outros membros, contraria a vontade expressa de teu Pai e o sentido da tua e da nossa missão.

Por isso, hoje, eu peço-te, Senhor, que me faças mais dedicado, mais atento e mais justo na entrega de mim mesmo e do meu tempo ao serviço do teu Reino.

Quanta solicitude com as mesmas pessoas e os mesmos grupos, talvez com possibilidades e obrigação de caminharem mais sozinhos, e quão pouca atenção a outros membros mais necessitados!

Quantos excessos e privilégios para os que estão perto, e quanto esquecimento e abandono pelos que andam longe, por caminhos paralelos ou opostos aos do teu Reino!

E depois… quanta crítica e quanto escândalo, porque os mais abandonados por nós te abandonam a cada minuto!

Livra-me de me deixar sossegar com a paz do grupo ou da comunidade que me rodeia, enquanto outros rondam longe talvez com receio de nos incomodarem.

Livra-me de julgar a uns e a outros.

Livra-me, sobretudo, de afugentar alguém com as minhas seguranças e certezas ou de cegar alguém com as minhas dúvidas.

E livra a tua Igreja de se apresentar ao mundo, em cada comunidade, em cada grupo, em cada cristão, ferida por querelas doutrinais, polarizações ideológicas ou condenações recíprocas, sendo para os outros motivo de perturbação ou desorientação.

Faz de mim, Senhor, um instrumento de paz e um artificie de unidade.

Faz de todos os evangelizadores do teu Reino, pessoas amadurecidas na fé, capazes de se encontrar, para além das tensões, graças à procura comum, sincera e desinteressada da verdade, que és Tu.

Partilha

Qual a frase desta oração que mais te tocou?

Se quiseres podes partilhar com o resto do grupo as reflexões que foste chamado a fazer ao longo da oração.

Pai Nosso

Glória

Cântico Final: “O Teu Reino, Senhor”

O Teu reino Senhor (Oh Senhor, Oh Senhor)

O Teu reino Senhor, venha até nós,

O Teu reino Senhor

Reino de paz e de amor, fraternidade, alegria

Reino dos filhos de Deus, reino de Cristo

Reino sem fome, nem sede, de abundância aos pobres

Reino dos filhos de Deus, reino de Cristo

Reino sem angústia, nem dor, felicidade sem fim

Reino dos filhos de Deus, reino de Cristo

Sinal da Cruz

“A Infância de Jesus”_Susana Sousa

Deixo-vos também o link de onde tirei uma das teorias possíveis para a vida de Jesus entre os 13 e 30 anos: http://uniao-prosperidade.blogspot.com/2007/01/jesus-peregrino-e-suas-iniciaes.html



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