LIVRO DE JOB

Sessão do dia 2 de Março de 2008, Tiago Faria

A SABEDORIA E OS LIVROS SAPIENCIAIS

Nos Antigo e Novo Testamentos, os livros bíblicos podem ser divididos em Livros Históricos (por exemplo, livro dos Reis, das Crónicas e Evangelhos) que incluem os Livros da Lei (pentateuco), Livros Sapienciais (por exemplo, livro dos Provérbios, da Sabedoria e cartas Apostólicas) e livros Proféticos (por exemplo, Isaías, Jeremias e Livro do Apocalípse). O livro de Job insere-se no conjunto dos Livros Sapienciais ou Livros da Sabedoria. O termo sabedoria é aplicado a um conhecimento baseado na experiência humana acumulada ao longo da vida e enriquecida através de gerações e que se fixou em pequenas frases como os provérbios.

O povo hebreu apercebeu-se da importância que a sabedoria tinha pois não era possível regulamentar todas as áreas da vida apenas pela Lei de Moisés e dos profetas. Havia, portanto, a necessidade de adquirir conhecimentos e capacidade crítica para avaliar e discernir sobre pessoas, situações e acontecimentos. Os livros Sapienciais caracterizam-se pela fé do homem na sabedoria divina. Enquanto nos livros Históricos a personagem terrena é o Povo de Deus como um todo, nos livros Sapienciais o centro é o homem individual, a sua vida quotidiana, a sua liberdade pessoal, o uso da razão e da prudência para orientar a sua vida, a sua relação com a criação e os seus enigmas. Ao contrário do que acontece nas profecias, a sabedoria exige que todas as capacidades e dons do homem sejam utilizados. A sabedoria nasce e cresce do homem para Deus em oposição à Lei e às Profecias que são uma mensagem de Deus para o homem. Na Lei e nas profecias, a autoridade está em Deus que é o autor da Palavra; na sabedoria, a autoridade está na argumentação, na reflexão, na experiência, na tradição.

Outra característica da sabedoria bíblica é o seu afastamento do culto. O encontro do sábio com Deus dá-se na criação e não no âmbito do culto. A tarefa dos autores dos Livros da Sabedoria é doutrinal sendo, muitos deles, leigos bastante cultos e conhecedores das culturas dos povos vizinhos. De facto, muitas das histórias relatadas nos Livros da Sabedoria têm a sua origem em histórias existentes nas regiões vizinhas de Israel que foram adaptadas segundo a perspectiva religiosa do povo hebreu. No Médio Oriente Antigo, a “ordem do mundo” era uma característica fundamental do pensamento e da fé: as divindades manifestavam‑se aos mortais e estes discerniam princípios gerais de conduta como a rectidão, a justiça, o direito e a verdade. A sabedoria consistia em compreender esta “ordem”. Ao adoptar e adaptar estes ensinamentos, Israel colocou o Deus único como o princípio e a causa dessa “ordem do mundo” e, portanto, como origem dos princípios fundamentais da vida humana.

A história sapiencial acompanha o homem desde sempre. No entanto, existem épocas históricas que foram mais propícias a esta reflexão. Tradicionalmente, o pensamento sapiencial está associado à figura de Salomão (972-931 a.C.). Antes de Salomão, Saúl e David estiveram concentrados na construção e expansão do reino de Judá e de Israel. Logo, não dispunham de meios para promover a educação. Com um reino estável e uma economia sadia, Salomão pôde dedicar-se à cultura e à reflexão sapiencial. Foi também durante o reinado de Salomão que se pensa que muitos textos bíblicos tenham começado a ser escritos. No entanto, a grande expansão do pensamento sapiencial aconteceu no período posterior ao exílio na Babilónia (cerca de 600 a.C.). Durante este período, a sabedoria passa a ser vista como a mediadora da revelação divina sendo considerada como o princípio divino dado aos homens na criação, convertendo-se na grande fonte de inspiração para a educação dos povos. A antiga sabedoria era orientada pelo temor de Deus, no entanto, a nova sabedoria é personificada, ou seja, passa a ser considerada como uma entidade autónoma e distinta de Deus e do homem. A sabedoria age por si, fala ao homem como uma pessoa, é a forma de ligação entre a salvação de Deus e o homem. Apesar de ser personificada, a sabedoria nunca foi encarada como uma pessoa; essa pessoa completamente sábia será Jesus Cristo.

LIVRO DE JOB

Autoria e estrutura

Uma análise cuidadosa do seu estilo literário permite afirmar que o Livro de Job não foi composto de uma só vez. Além disso, existem algumas incoerências no seu conteúdo o que confirma a opinião de que este conjunto literário tenha sofrido diversas alterações e acrescentos ao longo da história. É provável, no entanto, que o autor principal desta obra tenha sido um israelita conhecedor do pensamento hebraico tradicional e das grandes preocupações humanistas existentes nos países vizinhos. O conto tradicional de Job deverá ter a sua origem em data indeterminada, mas bastante antiga, na região a sul de Israel. O nome de Job não é um nome tradicional hebraico, aparecendo apenas neste livro, no livro de Ezequiel e na Carta de Tiago onde Job é apresentado como uma figura lendária dos tempos patriarcais dotada de grande sabedoria. Apesar da história ter como base um conto bastante antigo, a maioria dos estudiosos situa este livro no período pós-exílio (cerca de 400 a.C.).

O Livro de Job impôs-se como uma marco fundamental na Bíblia porque, por um lado, apresenta a experiência religiosa pessoal como um objecto de reflexão (e fá-lo com notável profundidade humana) e, por outro lado, apresenta a tomada de consciência dos sofrimentos e dramas da vida humana, procurando a sua interpretação à luz da vontade divina. O Livro reflecte as repercussões do sofrimento, quer directamente na experiência de quem sofre, quer indirectamente nos conceitos religiosos e morais existentes na época. Por outras palavras, no Livro de Job analisa-se o problema de saber se existe alguma correlação justa ou lógica entre a maneira honesta como se vive e a maneira como a vida nos corre.

A estrutura do Livro de Job pode ser esquematizada por:

I. Prólogo biográfico: 1,1-2,13 (Job paciente);

II. Primeiro monólogo: 3,1-26 (Lamentações de Job);

III. Primeiro debate: 4,1-14,22;

IV. Segundo debate: 15,1-21,34;

V. Terceiro debate: 22,1-27,23;

VI. Elogio da sabedoria: 28,1-28;

VII. Segundo monólogo: 29,1-31,40 (Job desiste de pedir respostas a Deus);

VIII. Discurso de Eliú: 32,1-37,24;

IX. Intervenção de Deus: 38,1-42,6;

X. Epílogo biográfico: 42,7-17 (Job recompensado).

Tema e mensagem

A popular história de Job é a de um homem justo, íntegro, piedoso e rico que é subitamente posto à prova. Job vai perdendo todos os seus bens, os seus filhos e a sua saúde. A sua reacção não é de revolta mas de aceitação e de paciência: «Nu saí do ventre de minha mãe, e nu para ele voltarei. Javé tudo me deu e Javé tudo me tirou. Bendito seja o nome de Javé!» (Jb 1,21). Por isso, Job é apresentado como modelo do sofredor paciente. A sua fidelidade a Deus leva a que, no fim, Job seja recompensado por Deus recuperando a saúde, os bens e até numerosos filhos. No entanto, não é nesta pequena história contada em prosa que se encontra a maior riqueza deste livro.

A verdadeira originalidade do Livro de Job está escrita em verso na sua parte central. Aqui encontramos um Job completamente diferente, um Job inconformado, repleto de perguntas, que não aceita a sua desgraça nem a explicação tradicional e que interroga e pede contas a Deus pelo que lhe aconteceu. Temos, portanto duas partes no Livro de Job: a primeira, idealista e utópica, apresenta-nos um modelo de paciência, aceitação, conformismo; e a segunda parte, que está mais relacionada com a realidade, o ser humano é-nos apresentado com dúvidas, dilemas e perguntas sobre a vontade de Deus.

O sofrimento é a força motriz que impele Job (e nos impele a nós) para a dúvida, para as interrogações, em última análise, o sofrimento leva-o ao encontro com Deus, pois obriga-o a descer ao profundo do humano para procurar o sentido para esse sofrimento. Durante esta reflexão poética central, o Livro de Job apresenta-nos vários amigos com diversas argumentações acusando muitas vezes Job de ser o responsável pelo sofrimento em que se encontra. No entanto, Job nunca desfalece até que Deus intervém respondendo a todas as discussões anteriores.

O Livro de Job é uma obra de reflexão e meditação e, ao mesmo tempo, um espaço para levantar questões ainda hoje dramáticas. Em termos teológicos, o Livro de Job não apresenta uma catequese tradicional mas antes analisa um conjunto de problemas cuja solução reflecte a concepção que se tem sobre Deus.

Em Job, rejeita-se um sistema de pensamento religioso: as posições moralistas e tradicionais da equivalência entre o sofrimento de uma pessoa e algum pecado por ela cometido. É o pensamento maioritariamente defendido pelos seus amigos. Por outro lado, o pensamento religioso do livro parece aproximar-se da nova consciência de Job, de onde emergem verdades já bastante evidentes para ele, mas que o deixam ainda muito inseguro e mesmo escandalizado. Mas nem todas as suas ideias são confirmadas, após a contemplação da sabedoria (Cap. 28), o discurso de Eliú (Cap. 32-37) e a intervenção final de Deus. Se as teses da religiosidade tradicional e popular sofrem uma forte contestação, também as novas sensações iniciais de Job chegam ao fim algo esbatidas. Ao longo do livro, Job empreende uma reflexão amadurecida e profunda.

Em suma, neste livro recusa-se que a causalidade de todo o sofrimento deva ser atribuída, seja ao homem, seja a Deus. A ética e o ciclo da vida, com os seus percursos naturais de sofrimento e morte, são dois processos coexistentes, mas autónomos. A justiça e a acção de Deus não se podem medir com as regras de equivalência que são normais na justiça terrena. E este é um dos mais marcantes contributos do Livro de Job para a importante questão do humanismo e da experiência religiosa. A sua atitude básica perante o sofrimento não é de moral legalista, é, antes, uma atitude de corajoso acolhimento do real; é contemplativa e verificadora; é um caminho de sabedoria. É, por conseguinte, um espaço de transformação de si mesmo e dos factos que levam ao conhecimento e entrega incondicional do homem a Deus.

ANÁLISE DO LIVRO DE JOB

Prólogo

Apresentação de Job

Job é apresentado como tendo uma vida irrepreensível e feliz. Job é dono de uma grande fortuna e pai de numerosos filhos (Jb 1,1-3)

Diálogos entre Deus e Satan (nome funcional para acusador tentador, negador)

No primeiro diálogo (Jb 1,6-12), o tentador interroga Deus sobre a fidelidade de Job. Será que Job teme a Deus de forma totalmente desinteressada e gratuita? Segue-se o acontecimento terreno decorrente deste primeiro diálogo entre Deus e Satan (Jb 1,13-19). A resposta de Job reflecte a sua genuína fidelidade (Jb 1,20-22).

No segundo diálogo (Jb 2,1-6), Satan continua a duvidar da fidelidade de Job e consegue impor-lhe maiores sofrimentos. Depois do reflexo terreno deste diálogo (Jb 2,7-8), Job mantém-se fiel, sem pecar ou protestar contra Deus (Jb 2,9-10).

Os amigos de Job

Job recebe a visita de três amigos que vêm solidarizar-se com a sua desgraça e consolá-lo. Ao vê-lo, os amigos ficam num profundo silêncio, sinal de solenidade e nobreza, mas também sinal de admiração e incapacidade de consolar Job (Jb 2,11-13).

Primeiro monólogo de Job ( Lamentações de Job)

Job quebra o silêncio e amaldiçoa o dia em que nasceu, amaldiçoa a sua vida. As exclamações, dirigidas tanto aos amigos como a Deus, saem-lhe de forma intempestiva e agressiva reflectindo o drama trágico do seu sofrimento. Imagens como “trevas”, “nuvens”, “eclipses”, “escuridão”, “morte”, “aborto” e “sepulcro” revelam o caos em que se encontra. Neste texto a esperança é uma palavra vã e a morte aparece, por vezes, como alívio da dor e, outras vezes, como inimiga de uma última esperança que nem tem a coragem de se exprimir.

Estas lamentações dramáticas fazem de Job um companheiro para todos os que sentem o sofrimento e o quanto custa a dor e a procura de compaixão.

Debates com os amigos

O monólogo de Job contém um apelo à solidariedade dos amigos, mas estes não demonstram qualquer sinal de compaixão. Os amigos preocupam-se especialmente em apresentar e defender as suas teses baseadas na teologia oficial que não responde a Job. A argumentação dos amigos foca quatro pontos principais:

Dogma da retribuição – o castigo dos pecadores

O castigo dos maus está profundamente enraizado na tradição bíblica e é repetidamente expresso pelos amigos de Job recorrendo a imagens tradicionais da bíblia (Jb 8,11-14; Jb 15,20-23; Jb 27,15-17). Ao utilizarem o dogma da retribuição no diálogo com Job, os amigos estão implicitamente a acusarem Job de ser um pecador cujos pecados são realizados em segredo. Além disso, o facto de Job não reconhecer a culpa e pedir justificações a Deus é considerado pelos amigos como arrogância que apenas agrava a situação. As acusações dos amigos vão crescendo, chegando, mesmo, à injúria (Jb 15,4-6; Jb 22,4-20). O amigos atribuem a Deus a origem do castigo mas reconhecem que Deus se serve das causas naturais para executar esse castigo. Job refuta os argumentos dos amigos, pondo em causa as suas atitudes e antecipando o veredicto de Deus sobre eles (Jb 42,7). Job critica o dogma da retribuição dizendo que essa teoria está constantemente a ser posta em causa pela realidade: quando uma calamidade atinge a terra, tanto os bons como os maus são afectados (Jb 9,22-24).

Dogma da retribuição – a prosperidade dos justos

Por oposição ao castigo dos pecadores, o dogma da retribuição equitativa é a felicidade garantida dos justos (Jb 5,20-22; Jb 11,13-17; Jb 22,21). Segundo os amigos, a prosperidade dos justos ainda é possível, Job deve converter-se e humilhar-se diante de Deus, reconhecendo as suas faltas. De recordar que este foi o tema da conversa de Deus com Satan: a fidelidade a Deus por oposição ao mercantilismo religioso. Job, convicto da rectidão da sua vida, continua a gritar com toda a energia a sua inocência (Jb 6,28-30; Jb 13,17-18; Jb 27,5-7).

Indignidade do homem – Deus é a única e completa santidade

Como Job continua a repetir a sua inocência, os amigos tentam utilizar outro argumento: ninguém pode reclamar-se puro diante da santidade de Deus. Portanto, segundo os amigos, Job nunca poderia ter a ousadia de pedir justificações a Deus. O tema da indignidade humana perante Deus é muito comum, não só na literatura sapiencial, como também nos profetas e nos salmos. Os amigos de Job apresentam-lhe este argumento de forma clara e eloquente (Jb15,14-16).

Job concorda com este argumento mas por razões diferentes das apresentadas pelos seus amigos. Para estes, a razão da indignidade do homem e, concretamente de Job, reside no seu pecado. Por sua vez, para Job a razão reside na relação da criatura com o seu Criador (Jb 9,2-4).

Sofrimento como prova pedagógica para o justo

Perante a firmeza de Job ao reclamar a sua inocência, os amigos (em especial Elifaz) argumentam que Deus utiliza o sofrimento do homem como forma de o levar à conversão. Elifaz exorta Job a não desprezar “a lição do Todo-Poderoso” (Jb 5,17-18). Job sente a ausência e a crueldade de Deus na sua vida e, no entanto, de forma dramática percebe ainda que Deus é a sua única esperança para tentar compreender o que se passa com ele e para tentar encontrar justificação. Deus é, ao mesmo, tempo a causa do sofrimento e a esperança de Job (Jb 17, 3). Job tenta encontrá-lo mas Deus não está acessível (Jb 23,8-9).

Elogio da Sabedoria (Jb 28,1-28)

Neste texto é cantada e louvada a grandeza de Deus e o seu domínio sobre a criação e a história. O elogio da Sabedoria dentro do livro de Job funciona de separador entre os três debates anteriores e os três discursos seguintes (segundo monólogo de Job, discurso de Eliú e intervenção de Deus).

Segundo monólogo de Job

Durante os debates com os amigos, Job rejeita os seus argumentos com a segurança e convicção próprias de um homem de fé. A ideia de um Deus mercantilista nas suas recompensas e castigos é contrária àquilo que se passava com Job. Apesar de se sentir abandonado por Deus, Job nunca vacilou na fé, nem mesmo quando os amigos lhe sugerem que se considere um pecador para obter novamente a simpatia de Deus. Para Job, isto seria negar-se a si mesmo e a Deus. Como as atitudes e os argumentos dos amigos se revelam inúteis para a consolação de Job, estes debates terminam. Para tentar compreender e resolver o seu problema, Job dirige-se directamente a Deus. Durante os debates com os amigos, aparecem já sérias acusações a Deus, pois, se Job é inocente e Deus é poderoso, então é Deus o responsável pela situação de Job. Este é o tema principal deste segundo monólogo de Job. Deus é apresentado como ausente, cruel e distante (Jb 30, 20-21) sendo a imagem do Deus consolador uma longínqua memória do passado (Jb 29,1-5).

O segundo monólogo Job é constituído por três partes: o passado feliz (Cap. 29), o presente miserável e desgraçado (Cap. 30) e um juramento pessoal da sua inocência (Cap. 31). Neste monólogo, Job apresenta um Deus poderoso e dominador da natureza e da história, criador e atento ao homem e cuja sabedoria excede a de qualquer humano. A falta de um mediador imparcial entre o homem e Deus permite que Deus exprima a sua força de forma arbitrária, incompreensível. O drama de Job reside na contradição brutal que existe entre a sua fé (Job sempre foi e continua a ser um homem crente na bondade do criador pela criatura) e a realidade que experimenta. Além da agressividade de Deus, Job revolta-se também contra o seu silêncio. Esta violenta revolta de Job relata a procura desesperada por Deus, por um Deus próximo e consolador. Job sente que a sua vida está em jogo, Job sente que a credibilidade de Deus está em jogo e isso leva-o a desafiar, de forma violenta, o próprio Deus para que lhe faça um julgamento. Job continua a reclamar a sua inocência perante Deus, seu rival e juiz, seguro de que sairá absolvido porque Deus há-de ser um Deus justo. A única dúvida que ainda persiste é se Deus irá responder. Apesar das várias interpelações que lhe são dirigidas directamente, Deus mantém‑se em silêncio.

Discurso de Eliú

Eliú não foi apresentado na lista inicial de amigos que vêm consolar Job nem aparece no resumo final dos interveniente, por isso, este discurso deve ter sido acrescentado depois da conclusão do texto (de facto, em Jb 31,40 diz-se “Aqui terminam as palavras de Job). No entanto, a forma como Eliú fala denota que esteve atento aos debates anteriores. Eliú é um jovem sábio que intervém depois de Job acusar e desafiar Deus para o julgar. Como sábio, Eliú chama a atenção de Job para a sua linguagem, para a forma como se dirige a Deus e o acusa de injustiça. Para Eliú, Job não deveria gritar, mas sim obedecer (Jb 36,19) e glorificar Deus (Jb 34, 24). O mais importante na intervenção de Eliú é, contudo, a repreensão que dirige aos três amigos de Job por não terem encontrado resposta convincente contra Job. Em Eliú retoma-se a teoria do sofrimento como pedagogia para o justo (Jb 33,13-30; Jb 35,8-12). Segundo Eliú, o que aconteceu a Job não é fruto dos seus pecados mas sim para o tornar humilde. Apesar de conversar com Job, Eliú não mostra compaixão pelo seu sofrimento; mantém-se distante e acusa-o mesmo de blasfémia porque se Job tivesse razão estaria acima do próprio Deus. Além disso, para Eliú Job não deve escandalizar-se com o silêncio de Deus porque Deus é um ser supremo e omnipotente (Jb 34,29).

Intervenção de Deus

Do capítulo 3 ao 37, Deus encontra-se em silêncio. Apenas Job, os amigos e Eliú falam. Aqui se verifica a supremacia de Deus que responde a Job quando acha ser o tempo e não quando Job o exige. Na sua intervenção, Deus vem ao encontro de Job e revela-se de forma plena permitindo o encontro total de Job com Deus. Além disso, pode dizer-se que Deus sente a necessidade de intervir porque não está de acordo com as argumentações dos três amigos de Job e nem lhes dá qualquer importância. O mais curioso na intervenção de Deus é que não responde directamente a Job apesar dos vários “porquês” com que Job interpela Deus ao longo do texto. Deus não se justifica nem apresenta qualquer crítica a Job nem aos seus amigos e companheiros. O discurso de Deus não trata do sofrimento de Job. Deus apenas se apresenta como Criador do universo com todo o seu sentido e grandeza. Deus submete Job a um exame da história (Cap. 28) para o recordar que deve submeter-se à criação e que a beleza dessa criação reflecte a bondade de Deus. Deus fala de dois animais enormes e repelentes (hipopótamo e crocodilo) para recordar a Job que Deus é o Senhor do universo. Se Deus trata assim esses animais, Job terá de discorrer, por analogia, como não tratará Deus o homem e a mulher, feitos à sua imagem e semelhança.

Perante estas provas, Job reencontra-se com Deus e responde arrependendo-se da forma como falou a Deus (Jb 40,4-5; Jb 42,2-6). Job não se confessa pecador como os seus amigos queriam e logo Deus os repreende por não terem falado dele com rectidão, tal como Job fez (Jb 42,7).

Epílogo

O epílogo é o final feliz da história de Job. Regressam as bênçãos, a riqueza e felicidade pela acção do Deus que Job conhecia e que era distinto do Deus retributivo de quem os amigos falavam. De notar que depois de Job ressuscitar da desgraça não se vinga dos seus amigos. Pelo contrário, intercede por eles junto de Deus (Jb 42,5-9). Job desgraçado e sofredor torna-se no salvador e intercessor. É Job quem “salva” a humanidade intercedendo pelos pecadores.

Este epílogo mostra de forma clara que o Deus retributivo defendido pelos amigos de Job era um Deus artificial. Este epílogo é uma crítica à religiosidade que inventa deuses vingativos e um alerta para não cairmos, nós próprios, na tentação de olhar para Deus no modelo retributivo e fugirmos do verdadeiro Deus, libertador de ontem, hoje e de sempre.

BIBLIOGRAFIA

Bíblia Sagrada, Difusora Bíblica;

Neves, Frei Joaquim Carreira das, A Bíblia: o Livro dos Livros, Comentários ao Antigo Testamento, Volume I, Editorial Franciscana, 2007;

Alves, Frei Herculano, “Raízes da Sabedoria Bíblica”, in Caminhai na Sabedoria – Livros Sapienciais, Difusora Bíblica, 1991;

Ornelas, José, “O sábio: conformista ou inconformista? – O livro de Job”, in Caminhai na Sabedoria – Livros Sapienciais, Difusora Bíblica, 1991;

Apontamentos pessoais da Escola de Oração, Lições de Irmã Luisa Almendra, “Tocando o (pro)fundo humano: as perguntas de Job”, “Entre palavras e silêncios: as respostas a Job” e “Desvendando o (pro)fundo do divino: Job no limiar da Fé”, Março e Abril 2007.

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7 Responses to “LIVRO DE JOB”


  1. 1 neidy Novembro 3, 2011 às 3:23 pm

    Adorei conhecer este adoravel pagina da Net

  2. 2 neidy Novembro 3, 2011 às 3:25 pm

    Adorei conhecer este programa da Net

  3. 3 Mara Novembro 10, 2011 às 6:21 am

    Na verdade, a fé é que nos leva a Deus e com Ele permencer.
    Essa fé é alimentada por testemunhos, tanto os constantes na Bíblia como as que nos são contadas por aqueles que foram beneficiados com milagres.
    Por esta razão encorajo todos os que se disponibilizam em ensinar sobre a Santa Palavra de Deus.
    Temos muito para aprender sobre a bíblia.

  4. 4 Mara Novembro 10, 2011 às 6:23 am

    Na verdade, a fé é que nos leva a Deus e com Ele permanecer.
    Essa fé é alimentada por testemunhos, tanto os constantes na Bíblia como as que nos são contadas por aqueles que foram beneficiados com milagres, nos nossos dias.
    Por esta razão encorajo e agradeço a todos os que se disponibilizam em ensinar sobre a Santa Palavra de Deus.
    Temos muito para aprender sobre a bíblia.

  5. 5 Mara Novembro 10, 2011 às 6:27 am

    Na verdade, a fé é que nos leva a Deus e com Ele permencer.
    Essa fé é alimentada por testemunhos, tanto os constantes na Bíblia como os que nos são contados por aqueles que foram beneficiados com milagres.
    Por esta razão encorajo todos os que se disponibilizam em ensinar sobre a Santa Palavra de Deus.
    Temos muito para aprender sobre a bíblia.

  6. 6 jorge Março 14, 2013 às 5:07 pm

    No texto, no sub titulo autoria e divisão, é referido que existem algumas incoerencias no livro de job, quais?
    Não é suficiente dizer que as há é necessário apontá-las e justificá-las.

  7. 7 Anónimo Setembro 30, 2013 às 3:10 pm

    gostei de saber um pouco mais sobre nos e o divino


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