Salvos pela esperança

1.    O papa Bento XVI acaba de escrever a sua segunda encíclica que será publicada a 6 de Dezembro, em pleno tempo do Advento. Depois de ter iniciado o seu pontificado com um documento sobre o amor, “Deus caritas est”, agora faz-nos o desafio da esperança “Spe salvi”. A encíclica do Papa é um convite à esperança, pois é nela que seremos salvos.

  • ·      O Papa traçou um percurso teologal: renovar o amor, descobrir a última resposta às perguntas do homem e reencontrar a fé. É um programa que envolve as três virtudes fundamentais o Santo Padre pede aos cristãos para reflectirem agora sobre a segunda dessas virtudes, a esperança.

  • ·      A esperança é uma virtude que se constrói todos os dias. O desafio está em esperar contra toda a esperança, na condição de restituir o primado da vida humana e do universo a Deus e à sua Palavra, o que só é possível na radicalidade do Evangelho.

  • ·      Bento XVI retoma “a teologia clássica da esperança que não pretende responder às perguntas sobre aquilo em “que” esperar, mas em “quem” devemos esperar. E reencontra tudo no dar a Deus o primeiro lugar, na credibilidade de um Deus em quem podemos confiar, uma pessoa concreta que amamos e que nos ama”.

De certeza que todos os cristãos vão estar aguardando a publicação da encíclica, para recriarem as razões da esperança, perante um mundo que, ao menos na aparência, se afasta constantemente de Deus.

2.    O mundo contemporâneo é um lugar onde, com frequência, se desespera. Multiplicam-se as situações que desequilibram as pessoas: a violência e a insegurança, a crise económica e a falta de emprego, as inúmeras doenças com as endemias à mistura, as carências, as fragilidades, as solidões, tudo são situações que levam ao desespero, à depressão, às vezes ao suicídio. Como reagir, como ultrapassar as dificuldades?

  • ·      A dignidade e a liberdade são direitos consagrados na carta das nações, mas quantas vezes são contrariados, não só pela prática, nas relações humanas, como até pelas leis, no jogo das conveniências.

  • ·      A justiça exigiria dar a cada um a quilo a que ele tem legítimo direito, mas são muitos os injustiçados deste mundo, até porque a justiça dos tribunais é relativizada por leis que não são perfeitas e estão também marcadas por ideologias que não respeitam a pessoa humana.

  • ·      A indignação tornou-se então um direito indiscutível, na visão crítica dos cidadãos que não podem aceitar situações que violam gravemente o tratamento igual entre as pessoas. O que pensar das falhas gritantes no campo da saúde, da educação e do trabalho? O que sentir com o abandono das crianças e dos idosos? Como entender as dificuldades vividas pelos migrantes, de outra raça, de outra cultura?

  • ·      O direito à revolta acontece em cada protesto, seja perante o empregador, seja perante o responsável político, seja mesmo no quotidiano vulgar de quem se sente injustiçado.

Estes primeiros anos do terceiro milénio têm agravado desigualdades entre pessoas e entre povos, atirando alguns para um esbanjamento inaceitável e outros para uma degradação assustadora. É preciso injectar esperança no nosso mundo, mas não apenas com teorias, antes com gestos que transformem as coisas.

3.    A vinda de Jesus, simbólica em cada Advento, é um apelo à esperança. Não foi Ele que se deu aos mais pobres e injustiçados do seu tempo, descobrindo o seu problema e respondendo-lhes com atitudes de mudança? Foram as suas palavras e os seus gestos que, depois de aclamações na rua, o atiraram para os tribunais. E os tribunais religiosos, os tribunais civis, e os tribunais populares, condenaram-no, depois, à morte, pendurando-o numa cruz. A sua vida tornou-se ícone de esperança.

Pode perguntar-se: o que esperamos, porque esperamos e até quando esperamos.

  • ·      O que esperamos: certamente uma vida com a qualidade suficiente; mas também uma relação social marcada pela compreensão, o reconhecimento, a amizade; mas ainda um encontro com o transcendente que, na linha da fé, é a descoberta de Deus e a comunhão com Ele em Cristo Jesus.

  • ·      Porque esperamos: porque queremos ser felizes e a felicidade não está no dinheiro ou no poder, está muito mais na verdade e na coerência de vida, na consciência recta e na capacidade de serviço, na atenção aos outros a quem queremos fazer felizes, pelo contributo pequeno ou grande que podemos dar-lhes.

  • ·      Até quando esperamos: até que a criação inteira alcance a redenção (cf. Rom 8, 19-20), quando todas as coisas estiverem marcadas pela ressurreição (cf. Act 24, 15), quando Cristo for tudo em todos e em todas as coisas (cf. 1ª Cor 3, 22-23). Esperamos sempre, porque em todos os momentos tudo se pode transformar e o Senhor está mesmo em tudo e em todas as coisas.

Há um ditado popular que diz: “a esperança é a última coisa a morrer” ou “enquanto há vida há esperança”. A sabedoria popular conduz-nos para a esperança em Deus.

4.    O tempo do Advento é tempo de Esperança. Conduzidos por Isaías, João Baptista e Maria, deixemo-nos encharcar de esperança, porque Jesus está a chegar. “Maranatha: Vem Senhor Jesus!” (Ap 22, 5).

Retirado de Igreja Campo Grande

1 Response to “Salvos pela esperança”



  1. 1 Salvos pela esperança Trackback em Janeiro 5, 2008 às 4:02 am

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