Igreja em Portugal em 2008: ver e reflectir para agir

1. A Igreja, dom de Deus ao mundo, conta com a perenidade imutável do seu projecto e necessita, em cada tempo e lugar, de uma permanente atenção, para melhor servir os homens e mulheres, a quem se dirige, por força da sua missão, quer para lhes fazer o primeiro anúncio, quer para fortalecer e comprometer os já integrados, como seus membros.Dadas as mudanças que se operam na sociedade e afectam a vida das pessoas, cada ano que começa, porque o tempo conta na história da salvação, pode constituir para a Igreja uma ocasião propícia para reflectir sobre a fidelidade a Deus e aos homens e mulheres deste mundo em que vivemos e de que somos cidadãos. Poderá assim verificar se a perenidade do projecto e o cuidado da criatividade pastoral, andam juntos no seu agir.

2. Logo no início deste ano pastoral de 2007/2008, na visita Ad Limina, os bispos portugueses ouviram directamente do Papa Bento XVI, um apelo fraterno que constituiu, também, uma palavra de ordem na linha da construção permanente dos caminhos de comunhão, os quais implicam “mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros, para se ter uma Igreja ao ritmo do Vaticano II”. Tudo isto, insistiu o Papa, obriga a clarificar bem a função do clero e do laicado, porque é preciso ter em conta que “todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja.”

Nesta linha, Bento XVI chama ainda a atenção dos responsáveis para alguns pontos fundamentais da vida e da missão da Igreja, tais como: Igreja que não deve falar às pessoas primariamente de si, mas de Deus, tenha sempre no seu horizonte a eclesiologia de comunhão, dê prioridade pastoral à iniciação cristã feita no seu seio, provoque, pela acção e pelo testemunho, o encontro pessoal com Jesus Cristo, dado que é este o objectivo essencial da missão e do processo evangelizador.

3. Subjacente a estas preocupações e objectivos pastorais, estão, certamente, as dificuldades próprias da acção da Igreja numa sociedade em mudança cultural, onde se depara com o laicismo e o pluralismo expresso a todos os níveis, as aquisições válidas e os desvios da modernidade, a globalização da informação, o fascínio da gente nova, e não só, pelas conquistas tecnológicas.

Em resumo, há que contar com a passagem rápida de um mundo tradicional e fechado a um mundo urbano e sem fronteiras e, no campo eclesial, a passagem progressiva, embora lenta, de um laicado pouco instruído, passivo e acolhedor, ao ressurgir insistente de pessoas e de grupos, que, pela sua formação, ganham consciência do seu lugar na comunidade cristã, dos seus direitos e deveres, como membros do Povo de Deus, e trazem à Igreja o dinamismo de um fermento novo, vivo e imparável.

4. A Igreja em Portugal é, deste modo, chamada sem interregnos, a avaliar-se a si própria e à sua acção na comunidade portuguesa e à sua missão, aberta a um mundo sem fronteiras, porque não as tem nem a fé, nem o amor; a reflectir sobre os caminhos que está percorrendo e o sentido dos mesmos; a tomar consciência até que ponto ela é “casa e escola de comunhão” para todos; a ponderar como gasta o seu tempo, as energias dos seus mais diversos responsáveis, leigos, clero e consagrados, bem como os meios materiais de que dispõe; a tomar o pulso a si mesma, para ver se é uma Igreja que torna visível o Povo de Deus, como tal e aparece ao mundo como serva e pobre, fiel e sensível aos que mais precisam, nos aspectos material e social, espiritual e evangélico; a perguntar-se, com realismo, se tem verdadeira consciência de que não é dona de ninguém, pessoas e territórios, nem é apenas uma instituição bem organizada, voltada para dentro para se conservar e defender, mas um Povo que caminha com rumo certo, animado pela fé, testemunhando esperança, servindo com amor, vivendo a urgência de que chegue a todos o Evangelho de Cristo e não se perca nenhum daqueles que acreditam em Jesus Cristo e se dispuseram a segui-lo.

5. A Igreja em Portugal tem o dever de olhar, com a sabedoria e a força do Espírito, mais ao largo e para além dos limites do templo; de perscrutar e discernir “os sinais dos tempos”, já à vista uns, outros ainda encobertos por uma neblina que passa depressa; de ver, corajosamente, até que ponto é subsidiária de um mundo passageiro pelos critérios de juízo e de acção, relação com os poderosos, ocupações diárias, defesa de privilégios que não a levam a melhor servir, ou se é, de modo inequívoco, sinal de um Deus, que deu a cara em Jesus Cristo, para que todos sejam salvos

Tem ainda o dever de perceber, para intervir no espaço próprio e onde não se pode calar, qual o rumo da sociedade portuguesa, por força das opções políticas e públicas dos seus órgãos de soberania e dos dinamismos culturais e ideológicos que nela actuam, e verificar como tudo isso reconhece e respeita ou não a pessoa humana com os seus direitos de uma legitima cidadania e abertura aos deveres normais, bem como verificar como se têm em atenção as exigências de uma correcta organização social ao serviço de todos e que a todos proporcione, com normalidade, aquilo a que têm direito. Assim mostrará o compromisso social da fé, testemunhando que está, sempre e em tudo, do lado da verdade e da paz, da justiça e da defesa dos mais débeis.

6. O mundo plural e laico, em que vive e actua a Igreja em Portugal, liberta-a de defender posições do passado, mas obriga-a a ver, dado que está implantada no seio de uma comunidade democrática, qual o seu lugar no presente e quais as exigências posta à sua missão espiritual e humanizadora.

Neste contexto, tem perfeita legitimidade o papel de reivindicar o respeito devido à sua natureza institucional, ao património histórico, humano e cultural, que gerou e de que é detentora, ao alcance social da sua postura pública, ontem e hoje, frente à realidade, à defesa dos valores essenciais e às necessidades mais pobres e provados pela dificuldades da vida. Não se trata de se defender ou de defender privilégios de fora do tempo, mas, pese embora a um laicismo apostado em apagar a memória histórica, de mostrar como realiza e sempre realizou, por exigência da sua missão e da sua fé, um serviço à sociedade, enriquecendo-a de muitos modos e evitando o seu maior empobrecimento cultural e moral.

7. É visível que a Igreja em Portugal, nas suas dioceses, paróquias, serviços pastorais e movimentos apostólicos, se renovou, em vários aspectos, ao longo dos últimos anos. São muitas as iniciativas válidas, já operadas ou em curso, em relação às acções eclesiais da evangelização, liturgia, exercício da caridade, edificação de comunidades e mostrando o seu compromisso social. Iniciativas alargadas, referentes à formação sistemática dos leigos cristãos, ao apoio às famílias e aos jovens, à partilha multi-forme de bens humanos e materiais com terras e igreja longínquas, pobres de gente e de meios, ao estimulo e formação do voluntariado social, à presença positiva e actuante no mundo da cultura…

Iniciativas ainda que levam à procura de novos caminhos pastorais e ao empenhamento sério de colaboração, de modo a valorizar a sua presença e a acção na sociedade, e que, não raro, obrigada a enfrentar dificuldades surgidas e inexplicáveis, por exemplo no campo do ensino e da solidariedade social, por parte de quem devia conhecer e apreciar a sua acção púbica, de ordem humanizante.

As dificuldades correntes não têm impedido a Igreja de agir na sua caminhada. Porém, a natureza da sua missão exige sempre mais, mormente nos tempos que correm, tempos de contínuas mudanças, sociais e culturais, mas frequentemente pobres de valores morais e éticos e de espiritualidade, dominados por um consumismo que fecha os olhos aos necessitados do essencial, e por um hedonismo generalizado e destrutivo de pessoas e de famílias.

O descartável e o vazio, a reacção corrosiva ao essencial e ao permanente, instalaram-se de tal modo na sociedade, que minam o sentido da vida, das relações pessoais e da convivência sadia.

8. A Igreja, num esforço de renovação e de abertura ao diálogo, tem de orientar a sua atenção e acção, para onde se encontram os problemas que afectam as pessoas e a sociedade e estar cada vez mais próxima delas, das suas tristezas e dores, das suas alegrias e esperanças, dos seus projectos e lutas. (GS1)

Voltar ao Vaticano II, como recomenda o Papa, é dar mais valor à Igreja, Povo de Deus (LG 9 e ss) com toda a riqueza e novidade que Deus lhe outorgou, e com o que comporta e exige uma tal realidade. É dar maior atenção ao diálogo e à relação com as pessoas concretas, à sociedade em mudança e às instituições que nela actuam, a fim de que não perca a sua condição de portadora de bens e valores que não são meramente humanos, sendo em tudo sacramento e sinal da intima união com Deus e da unidade de todos os homens e mulheres (LG 1). Uma originalidade que se acolhe na fé e se vive e se testemunha com esperança.

Neste ponto, que parece pacífico e de há muito adquirido, o caminho a percorrer é ainda longo e a chamada de atenção do Papa é, por isso mesmo, muito oportuna.

9. Aos olhos de muita gente, e com alguma razão, a Igreja em Portugal aparece como uma instituição que faz a gestão das suas capacidades, prevalentemente orientada para conservar o que existe nas diversas comunidades e responder às diversas necessidades de ordem religiosa. Há algo de exagero neste juízo, porque uma pastoral de pura manutenção, ainda que generosa e esforçada, seria hoje uma acção sem sentido no presente e no futuro.

Porém, resta sempre a sensação de que, em muitas coisas, a Igreja corre paralela à vida da sociedade e das pessoas e que as suas estruturas não respondem no dia a dia ao que delas se deve esperar. Alguns exemplos: a catequese, em muitas comunidades, continua a ser coisa de crianças e orientada apenas para os sacramentos, sem nada para os adultos, nem para os que vivem fora de qualquer contacto coma Igreja; as paróquias em meios rurais, por vezes em número exagerado para os habitantes que restam, mantêm hábitos e exigências sem quaisquer perspectivas de futuro; muitos leigos continuam passivos ou entretidos com tradições vazias de conteúdos de fé e dimensão apostólica; persiste e tem aumentado a ausência de cristãos em movimentos apostólicos de actuação no meio, embora tenha aumentado os que gostam mais de serviços do templo…

Há, pois, que ter coragem para rever muitas coisas: ligação e serviço às pessoas concretas; consideração objectiva das estruturas existentes e do seu actual valor; número e condição dos agentes pastorais activos, nomeadamente do clero, e dos campos específicos onde se deviam gastar; planos de acção pastoral, frequentemente sem qualquer agressividade ou novidade; apelos prementes e desafios constantes sem resposta adequada, por parte da gente nova, da família, do mundo da cultura, dos que lutam pela justiça, dos excluídos sociais, dos que deixam a Igreja sem outra razão que o terem perdido o interesse por ela; resistência ao trabalho e à vida em equipa; retorno a formas passadas de promoção vocacional, devocionismo, atribuição de honras e títulos honoríficos…

Os leigos estão ainda longe de que lhe seja reconhecido o estatuto que têm, de pleno direito, como membros do Povo de Deus. Os órgãos de diálogo e participação na Igreja, quarenta anos depois do Vaticano II, são geralmente pobres de reflexão, submetidos à opinião de quem preside, e ainda, sem que haja explicação que o justifique. No entanto, também o Concílio o afirma, sem leigos cristãos, reconhecidos, formados e participativos, a Igreja não se poderá considerar verdadeira Igreja de Jesus Cristo.(AdG 11 e 21)

10. Esta reflexão não será consequente se não se fizer em comunhão com os mais responsáveis da Igreja, sempre numa dimensão de Povo de Deus e não apenas de hierarquia.

Cada diocese, com o seu bispo e respectivos conselhos, em assembleias ocasionais de membros diversos do Povo de Deus, parece dever ter como urgente uma reflexão séria e serena sobre a sua realidade, as estruturas pessoais e territoriais, os desafios sentidos, as respostas dadas ou a dar numa perspectiva evangelizadora. Muitos cristãos, humanamente válidos, estão subalimentados e não passam de baptizados pagãos. Não se chega a eles senão, em momentos determinados, e então mais por exigências de leis canónicas e de normas disciplinares que, no caso é o pior meio, de abordar e de chega

A Conferência Episcopal, como tal, tem um campo próprio e cada vez mais exigente que é fundamental num projecto de renovação da Igreja em Portugal. O seu testemunho positivo ou o seu silêncio não são inconsequentes. Pelo que, a sua reflexão, que não se pode reduzir às assembleias plenárias, exige objectividade e realismo na consideração dos problemas actuais; diálogo alargado e sem tabus; espírito claro de comunhão e de serviço; consideração de que não há problemas que, por serem de difícil solução, se devem considerar insolúveis; ausência de influências internas que actuam sem rumor ou de opiniões privilegiadas; procura de estruturas de serviço que actuem no seu seio a nível nacional, nas quais se manifesta a solidariedade efectiva das diversas dioceses; hábito de trabalhar com assessores preparados; compromisso de total união e fidelidade a linhas de acção, discutidas e programadas em comum para todo o país…

Perante orientações provindas dos serviços da Sé Apostólica e em ordem a uma melhor colaboração com o Papa no exercício do seu ministério pastoral, a Conferência Episcopal não se pode coibir de reflectir para denunciar, se for caso, medidas desajustadas ao serviço das igrejas particulares e locais ou desatenções provindas de uma centralidade de governo eclesial, desnecessária para salvaguardar a fé comum e impeditiva de uma acção que respeite a realidade, as exigências da vida e das pessoas e o normal direito à criatividade.

Muitas coisas se pedem à Igreja. A força da fé que a anima e o testemunho da esperança que ilumina o seu caminho, nunca deixarão que os seus membros mais conscientes e atentos cruzem os braços ou falem de impossíveis, ante as urgências do Reino.

António Marcelino, Bispo emérito de Aveiro

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