Uma vida escondida

Sessão do dia 16 de Março de 2008, Jorge Bastos

Uma vida escondida

Um olhar sobre a clausura das Carmelitas, no silêncio e na oração , aparentemente longe do mundo, mas perto das pessoas

Um silêncio que não se aprecia, mas é provocador. Uma alegria que desconcerta. Uma luminosidade que entra pelas janelas do Carmelo de Fátima e que surpreende na espontaneidade dos gestos, dos sorrisos, do acolhimento. Uma certeza que se ganha e que surge como uma graça. Diz a Superiora do Carmelo de Fátima, a Irmã Cristina Maria que esta “é uma vida que só se compreende à luz da fé”.

Será o Carmelo de Fátima um convento para o século XXI? As Carmelitas descalças são seguramente pessoas do Século XXI. O tempo passa e trás coisas novas. Mas é esse mesmo tempo que dá também a resposta da vocação e constrói a família dentro do convento.

Carmelo significa “jardim”. Conta a tradição que o profeta Elias se estabeleceu numa gruta, no Monte Carmelo, seguindo uma vida eremítica de oração e silêncio.

O silêncio e a oração humanas são iguais, mas encontram caminhos actuais.

Porque a vida se renova, não se pode pedir a uma pessoa que viva nas mesmas condições do Século XVI, mesmo sendo em clausura.

Mas o possível conforto “não retira em nada à vida de uma carmelita porque «os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e em verdade»”, recorda a Superiora.

“É este o culto que o Pai deseja e é este o caminho que nós levamos na adaptação aos novos tempos. O importante é que o nosso coração seja só dele. E procuremos que a nossa vida seja toda para Ele e para os irmãos”.

Um mundo pequeno

Vive-se e morre-se no Carmelo. Só se vai para o hospital em situação extrema. Por isso, a parte superior do Carmelo, em Fátima, está preparada para tratar das irmãs que estão doentes.

Nas imediações do convento está o cemitério onde estão sepultadas as irmãs que moraram nas antigas instalações e onde, serão sepultadas as irmãs que agora habitam o novo Carmelo.

As 20 irmãs que ali vivem, com idades entre os 23 e os 83 anos, são todas muito diferentes, em culturas, em educação, em temperamento também.

“Cada uma veio de seu lado”, apesar de presentemente, se encontrarem no Carmelo muitas irmãs naturais de Lisboa.

“Conhecemo-nos muito bem, ajudamo-nos muito umas às outras”. Nem por isso é fácil, tal como no conceito comum de família.

Mas a Irmã Cristina explica que “a nossa oração é efectiva e eficaz na medida em que uma comunidade de carmelitas for uma comunidade de amor”. Por isso, nunca excedem as 21 religiosas no convento, “para que sejamos uma comunidade familiar”.

Também neste processo se vive a entrega, do passar por cima, de quebrar fronteiras e barreiras psicológicas que cada uma possa ter. “Tudo isto acaba por tornar a comunidade terapêutica mas também fecunda na nossa oração”, pois, explica a Superiora, “a nossa oração só é verdadeira se eu amar a minha irmã que está aqui perto de mim”.

Alegria vivida

O acolhimento e a entrega que as irmãs sentem e demonstram por todas as pessoas que as visitam transborda.

“Quem procura relacionar-se com Deus tem que saber relacionar-se com os homens, o que não quer dizer que nós saibamos fazê-lo, mas tentamos”.

A Superiora atribui a alegria do acolhimento à ternura que sentem. “Temos muitas pessoas nossas amigas e talvez seja uma forma de nos fazermos próximas delas, já que tantas vezes não temos ocasião para o mostrar”. Mas o que brota para fora é o que se vive dentro. “Há uma empatia mútua que se cria assente na fé das pessoas”.

A Irmã Cristina Maria dá conta de um “mundo tão frio que as pessoas necessitam de um sorriso, de uma palavra, de um acolhimento, que é o que menos têm”.

Mesmo do lado de dentro do Carmelo, a Superiora nota que “as pessoas passam a vida a correr de um lado para outro, e acabam por se tratar superficialmente. Por isso, quando se encontra um coração que acolhe, a pessoa sente-se bem”.

“O acolhimento é dos valores que actualmente as pessoas mais precisam e mais desejam”, enfatiza. O Carmelo é também chamado a dar visibilidade “desse acolhimento e amizade, do abrir os braços às pessoas e sabê-las amar”.

Vida, dia a dia

As carmelitas iniciam o seu dia às 5h45. Meia hora depois encontram-se para rezar Laudes e depois, segue-se uma hora de oração mental. “Estamos todas juntas, no coro, perto da capela, onde vemos o sacrário, mas cada uma está a rezar em silêncio”, explica a Superiora.

Depois desta hora, segue-se o pequeno almoço “e fazemos mais qualquer coisa” antes das 8h15, hora em que celebram a eucaristia. Os responsáveis actuais pelas celebrações eucarísticas são os padres da Consolata.

Após a eucaristia “rezamos Tércia”, uma “hora menor do Ofício Divino” e depois as irmãs, realizam as mais diversas tarefas, até ao meio dia.

Às 12h rezam o Angelus e segue-se o almoço em silêncio. Na sala da refeição está um púlpito onde uma das irmãs lê uma leitura, uma história de um santo, o catecismo ou até mesmo notícias do Observatório Romano, enquanto as restantes comem.

Após o almoço e a arrumação da cozinha que “é muito rápida pois todas ajudam”, segue-se uma hora de recreio.

“Não se trata de saltar ao eixo”, brinca a Superiora, mas admite que “somos muito barulhentas umas com as outras”. Habitualmente em silêncio, nas horas de recreio “somos muito esfuziantes e quando podemos falar procuramos mostrar essa amizade”, aponta.

No recreio as irmãs estão todas juntas a fazer várias tarefas. “Algumas descascam batatas, outras fazem terços para vender para a loja” – uma forma de subsistência – e “falamos muito”.

Segue-se uma visita ao Santíssimo e voltam para o trabalho até às 15 horas. Nesta altura rezam a hora de Noa, “outra hora pequena do Ofício”.

Segue-se uma leitura espiritual durante uma hora. Pelas 16h15 regressam ao trabalho até às 17h30, hora das vésperas.

Segue-se “nova hora de meditação mental, tal como de manhã” e depois as carmelitas jantam, tal como na hora do almoço, acompanhadas de uma pessoa a ler.

Novamente recreio à noite e passado uma hora, rezam “o ofício de leituras”.

No final desta oração, “toca uma sineta e é o silêncio grande”, descreve a Ir. Cristina. Não se trata de um silêncio rigoroso, “podemos falar se necessário, mas o desnecessário, deixa-se para depois”.

A partir das 21 horas até às 21h45, as carmelitas seguem para a cela, “em silêncio” e “fazemos o que precisamos. Algumas lêem, outras estudam, outras escrevem e depois rezamos completas, todas juntas”. Quando terminam pelas 22h 15m, é hora de recolher às celas.

É uma vida muito particular. “Uma vida de silêncio, de oração, de solidão mas não solitária, não no sentido triste”, avança a Superiora.

As pessoas não estão habituadas ao silêncio. Quando se entra no Carmelo, a Irmã Cristina regista a dificuldade de “nos habituar ao silêncio, saber estar em silêncio”. Mas esta quietude não significar “estarmos apenas connosco mesmas, mas abrir um espaço para que Jesus possa falar”.

A Superiora descreve um espaço em que há silêncio, mas onde “há relação com as irmãs e é isso que faz com que a nossa oração vá crescendo e nós também”. Sabiamente acrescenta que “aprender isto, às vezes, leva uma vida”.

O silêncio surge com a naturalidade. Não sendo nada simples, tudo no Carmelo parece natural.

“É muito bonito quando se chega à possibilidade de perceber o Carmelo como algo muito simples, mas cheio de uma beleza muito grande”, aponta a Superiora.

“Jesus viveu 33 anos, numa vida simples, de família, escondida. Viveu para mostrar que isto é o essencial da vida”, explica.

A descrição e serenidade são condições que hoje são distantes das pessoas. “Todos querem ser visíveis, chamar a atenção” ao ponto de viver na descrição não ser compreensível para as pessoas.

Mas esta vida “na naturalidade, no óbvio, o permanecer na autenticidade faz com que a vida, realmente seja vida”, resume simplesmente.

No Carmelo, porque a clausula não permite a exposição, “temos condições para viver em autenticidade, em naturalidade, para que possamos fazer uma experiência de Deus”.

Uma experiência também possível aos leigos que pode converter.

“As pessoas mais afastadas da Igreja deixam-se tocar não por palavras nem por livros que leiam, mas pelo «Vinde e vede». E aqui experimenta-se a vida de família, e sente-se o amor”.

Consultar http://www.ecclesia.pt/setenta/

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